António Alves Vieira “transportava os momentos em que estava, para um outro universo"

António Alves Vieira “transportava os momentos em que estava, para um outro universo"

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O actor e activista dos direitos LGBTI, António Alves Vieira, com 30 anos, pôs fim à sua vida a 11 de Agosto de 2018

Um jovem nascido em Marco de Canavezes, veio para a Academia Contemporânea do Espectáculo, no Porto estudar. Mais tarde rumou a Paris para aperfeiçoar os seus conhecimentos artísticos, na Ecole International de Theatre Jacques Lecoq.

Trabalhou como actor em várias companhias, como o Teatro do Bolhão, o Centro Dramático de Viana/Teatro do Noroeste, Teatro das Beiras, Terra na Boca.

Trabalhou também como produtor e fez espectáculos por sua iniciativa, com textos escritos para si ou por ele. Participou entre outros, no filme “A rapariga da máquina de filmar”. Na televisão integrou o elenco de séries e novelas. Era formador de teatro, de interpretação e de movimento.

Estava actualmente a trabalhar no projecto de interpretar um texto escrito pela Regina Guimarães.

Além de actor, era também poeta, tendo publicado um livro de poemas.

Activista do movimento LGBTI em Portugal, António Alves Vieira era um militante activo das Panteras Rosa e um impulsionador da Marcha do Orgulho LGBT do Porto.

O seu amigo, e camarada, José Soeiro, escreveu “O António era luz. Juntava mundos. O António lutava com o coração, com o estômago, com o corpo todo. Tudo nele era intenso e verdadeiro”.

O deputado do Bloco de Esquerda continua referindo que “o António não era do negócio, do silêncio, do ganho, da estratégia, do cálculo, do salão, do pó-de-arroz, da cortesia, dos panos-quentes, da carreira, dos bons modos, do-que-fica-bem. O António era da rua, dos bares, dos recantos, da noite, das travecas velhas, dos sem-casa, dos tascos, dos pobres, da dádiva, da partilha, do impulso, da verdade bruta, do dedo na ferida, do caos criativo, dos que não têm”.

Segundo Soeiro “transportava os momentos em que estava para um outro universo – e a nós com ele. Ríamos, chorávamos, enterneciamo-nos, irritávamo-nos, deteríamo-nos, mas sabíamos que, com ele, tudo era outra coisa”.

Salientando que “era quase impossível que esses momentos não acabassem ao menos com um copo entornado, uma camisa rota, uma cadeira partida, uma trincha a voar, qualquer coisa... ‘Ó môr, o que é que queres? Tu sabes que eu tenho mãos de pissa: onde toco, fodo tudo’”. Mas claro que “nós, mais tarde ou mais cedo, riamo-nos sempre, porque gostamos de ti até ao infinito”, vincou.

De uma forma muito carinhosa e emocionante, José Soeiro disse “Tónico, minha paixão, meu amor, meu amigo, meu irmão, meu companheiro de casa, meu desorganizador do quotidiano, meu cuidador, meu porto, minha caixinha-de-surpresas, meu camarada de tudo”.

O amigo concluiu com “juntaste os amigos à meia-noite e fizeste-me uma festa com o coração. E depois escolheste este dia para te matares. Nós não conseguimos agarrar-te. Tónico, meu sacana, meu anjo, meu amor. Até nisso estamos ligados, juntinhos. Para sempre. Até ao fim”.

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