Divas reúne 36 vozes femininas – Amália, Teresa de Noronha, Hermínia, Berta, Lucília, é claro – que os autores consideram “divas do fado”. Mas o projecto recebeu já críticas no blog fado Cravo de Maria Leiria que no erudito titulo “Ó, Divas, Quo Vadis!” afirma: “não percebo porque é que a Tereza Tarouca se encontra no CD1 e porque é que a Patrícia Rodrigues e a Diamantina figuram no CD2?!... Quanto à escolha das cantadeiras consagradas, é coisa que nem questiono e que toda a gente sabe que tem sempre, antes da qualidade, imensos interesses em jogo, alguns comerciais, outros de vulgar compadrio/compadrio, fora todos os outros que aqui me escuso de enumerar…”.
Maria Leiria, uma conhecedora da matéria aponta ainda erros: “vendo eu que um dos fados com que se recorda a Argentina Santos é o "A Minha Pronúncia", fui logo à procura das autorias declaradas e tau! lá está o Alberto Rodrigues, como aparece no livrinho do MdF! [leia-se Museu do Fado] De facto, neste caso nem tenho dúvidas de que esta letra é mesmo do Clemente José Pereira, que a escreveu para o repertório da Carolina Redondo, que tinha a pronúncia característica de Setúbal, donde era natural; a Argentina bem o sabe e pode confirmar, bem como outras cantadeiras antigas que disso ainda bem se lembram; que era do repertório da Argentina, foi daquelas invenções que correu por aí, mas que a letra já fosse também do Alberto...”.
Maria Leiria refere no seu artigo - http://fadocravo.blogspot.com/2010/03/o-divas-quo-vadis.html - outras falhas neste mesmo registo.
Os textos dos autores são claros relativamente ao tema mas questiona-se se há uma Ana Sofia Varela (e muito bem), Joana Costa (outra voz que promete), Ana Laíns ou a muito acstiça Ana Marta, onde está a Raquel Tavares, a Carminho, a Mariza ou a Ana Moura?
À Antena 1 Nuno Lopes afirmou que foi por opção das próprias e foi mais longe ao “confidenciar” que a Mariza não gostava do termo. Nada disto está no texto e devia!
Há ainda outra interrogações, designadamente sobre a forma como se constituiram os CD's. Por exemplo M.ª Amélia Proença a quem Nuno Lopes chamou "um mapa do fado" num CD e a Tereza Tarouca noutra, sendo praticamente as duas da mesma geração sem Ontem nem Hoje.
Por outro lado, há vozes que já tínhamos há muito esquecido como Teresa Silva de Carvalho – e que bela voz e interpretação – ou Helena Tavares – extraordinário timbre, apesar da péssima masterização de um dos temas -, ou Fernanda Peres.
Questionada pelo Hardmusica, Julieta Estrela de Castro, presidente da Associação dos Amigos do Fado (APAF) afirmou que não repudia a utilização do termo no meio fadista pois aplica-se a excelentes vozes sem se referir o estilo mas salienta que actualmente “não haverá em abundância, claro que não, mas é muito possível que possa haver, agora que já houve, para mim sim, se o termo for usado no meio fadista”.
E seguindo este raciocínio todos os caminhos vão dar a Amália Rodrigues, aqui representada com “Fado do ciúme” e “Gaivota”. Até aqui foi de mau gosto a escolha do mesmo fado - o Perseguição de Carlos da Maia - para representar também outra grande: Maria Alice.
Voltando à "divina" Amália, falecida em 1999, tanto Julieta Estrela como Vítor Marceneiro, também ouvido pelo Hardmusica apontam a fadista como a grande diva.
“Cruzei-me uma vez de fugida com a Sr.ª D.ª Amália num espectáculo do Natal dos Hospitais no principio dos anos 1960 quando ainda não havia TV e éramos "distribuídos" por vários hospitais, sanatórios, e cadeias, ela sim "uma verdadeira Diva", frisou a fadista, actualmente proprietário do restaurante Fado Maior em Alfama.
Vítor Marceneiro afirma que o alvo é conquistar o mercado. “Uma opção de marketing e portanto um critério que não passará disso”, afirma o estudioso também autor de um blog - http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/101539.html -.
“O termo Diva, que acho que a ser usado só tem lógica, quanto a mim usá-lo em relação a Amália, o meu avô quando falava dela dizia-me sempre "é a maior", aliás a Amália dizia o mesmo em relação à Hermínia. O termo "Diva" no caso dela tem razão de ser quer pela sua internacionalização, quer pelo carinho que o povo português lhe dedicou, foi o povo que lhe chamou Diva”, atestou Vítor Marceneiro.
De qualquer modo é uma publicação muito interessante com excelentes textos e aqui tenho de concordar com o investigador Daniel Gouveia que se escusou a comentar a publicação mas sempre foi dizendo: “Atenção! Basta ler o que os dois têm escrito para perceber que não estão à mesma altura: Nuno Lopes sabe o que é Fado e M. Halpern não sabe”.
De qualquer forma valerá a pena ir à Fonoteca pelas 18:00 de dia 11 de Março ouvir as razões dos autores e do editor, Samuel Lopes ao Hardmusica afirmou: “o grande objectivo é acrescentar valor e surpreender as pessoas a cada novo projecto, valorizando os nossos produtos com conteúdos de excelência nestas edições especiais”.