Trata- de um livro em que enredo e personagens são quase autónomos e deixam de o ser quando o autor os agarra, os mistura e com eles faz a história.
Mas deixa-os manter as suas histórias separadas. E é este embrulho que tentamos desembrulhar com o desenrolar da leitura.
O mistério, a dúvida, o atropelar de situações faz-nos querer chegar a qualquer sítio que nos revele a solução.
Mas o autor passeia o seu inspector Jaime Ramos, que é da Judiciária do Porto, por todo o romance levando-o a relembrar um passado onde se enredam os mortos e os vivos que ora investiga.
Francisco José Viegas, interrogado sobre esta personagem que lhe é tão querida, admitiu orgulhoso que o seu detective escapa muitas vezes das suas mãos, como aconteceu um dia em Leiria, também durante uma apresentação, Uma pessoa perguntou onde ele morava e eu disse que no Porto, em tal rua, no primeiro andar. Uma senhora na assistência interrompeu e disse que era no segundo; depois perguntaram qual o carro que ele tinha, a mesma senhora disse que era um Volkswagen. Ele tem realmente uma vida própria.
Em "O Mar em Casablanca", Jaime Ramos parece estar domado e actuar de acordo com a vontade de quem o criou, mas de quando em vez resolve desaparecer deixando os seus colegas completamente desorientados.
Jaime Ramos tem dois ajudantes fabulosos de originais e eficientes. São eles Isaltino de Jesus e José Corsário, e com eles tenta unir pontas soltas de dois crimes ocorridos em sítios diferentes no Norte do país e as pontas acabam por surgir na Argentina, na África da guerra colonial, mais concretamente Guiné e Angola, e Marrocos, melhor Casablanca, onde há mar mas não se vê!
Mas a própria vida de Jaime Ramos, uma que já foi, vai surgindo neste unir de pontas soltas que começam a não o ser.
O curioso é que todo o romance é atravessado por agentes secretos que tornam ainda mais tenebrosa e complicada uma investigação onde ninguém é quem realmente parece ser.
Mas Jaime Ramos é um investigador de excelência, um homem que não deixa pontas soltas mesmo que interfiram na sua vida. E faz-nos chegar a solução para o enigma de forma não simples nem linear.
Por outro lado, ao passear-nos, no decorrer do romance pelo Passeio Alegre do Porto, pelo Palace de Vidago no Douro, pela Argentina, por África, e por Casablanca, Francisco José Viegas coloca-nos perante a diaspora portuguesa, mostrando-nos quão interventivos somos e quão deslocados nos sentimos quando fora deste bocadito que por acaso está plantado à... beira rio!
"O Mar em Casablanca" é um romance não policial, embora possa parecê-lo de quando em vez, onde Francisco José Viegas mais uma vez evidencia a sua capacidade de escrita simples em meandros complicados de uma história que mistura passado , presente e um futuro que ninguém quer conhecer.
"O Mar em Casablanca" é uma leitura que aconselhamos porque divertida e com ...suspense.